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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Analfabetismo entre jovens em favelas é maior que em áreas urbanas regulares



A taxa de analfabetismo entre as pessoas com 15 anos ou mais que vivem em favelas é 8,4%, o dobro da relativa às áreas urbanas regulares de municípios que concentram essas comunidades.

O dado faz parte do levantamento Aglomerados Subnormais – Primeiros Resultados, baseado em informações do Censo Demográfico 2010, divulgado hoje (21) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo revela que a situação mais grave é encontrada em Alagoas, onde 26,7% das pessoas que moram em assentamentos irregulares são analfabetas. Em seguida, aparecem a Paraíba (21,3%) e o Rio Grande do Norte (16,3%).
A taxa de analfabetismo no Brasil é 9,6%.

Ainda de acordo com o levantamento, mais da metade dos moradores de aglomerados subnormais (55,5%) são pessoas pardas, seguidas de brancas (30,6%) e de pretas (12,9%).

A maior parte da população (34%) dessas comunidades tem rendimento mensal na faixa que vai de mais de meio salário mínimo até um salário mínimo. Apenas 4,6% ganham mais de dois salários mínimos. Entre a população que vive nas áreas urbanas regulares em municípios com ocorrência de favelas, 26% têm rendimentos que vão de mais de meio salário mínimo até um salário mínimo e 27,1% ganham mais do que dois salários mínimos.

O levantamento aponta também que a população das favelas é, em média, mais jovem do que a de áreas de ocupação regular nas cidades com comunidades carentes. Enquanto nos aglomerados subnormais a idade média dos moradores é 27,9, nessas outras regiões urbanas é 32,7.

Fonte: Agência Brasil

domingo, 18 de dezembro de 2011

A paz que eu não quero ter



A FEIRA DA GUERRA – A PAZ QUE EU NÃO QUERO TER

Armada no pavilhão 3 da mesma maneira como se fosse a “Feira da Providência”, com estandes de diversos países, essa “feira” também reuniu fabricantes de todos os lugares do mundo, dentre eles Israel, Rússia, Brasil, EUA (com cerca de 100 empresas), França, Itália, Índia, Paquistão e por ai foi, mas no lugar dos artigos de artesanato, decoração e comidas típicas, os produtos que estavam a venda nos estandes eram pistolas, fuzis, munição, mísseis, minas, gás de pimenta, equipamentos de visão noturna, aviões, helicópteros e tanques de guerra, e mais todos os outros artigos que se possa imaginar que são necessários para se fazer uma guerra, seja ela uma guerra de trincheira, tecnológica, ou uma mais próxima geograficamente de nós, a “guerra” das favelas e cidades brasileiras.

Todos os produtos estavam expostos e à disposição dos visitantes para serem “experimentados” e claro com vendedores ou expositores atenciosos, dispostos a esclarecerem qualquer dúvida sobre como determinado artigo deveria ser manuseado para que obtivesse seu melhor desempenho. Em muitos dos estandes havia também as bonitas modelos de agências de eventos promocionais (como aquelas que vão à feiras de lançamentos de automóveis) para recepcionarem os interessados e entregarem souvenirs como chaveiros com os nomes das empresas fabricantes e os panfletos informativos, materiais supercompletos e com acabamento impecável.

Quem por acaso notou que na última semana algum dos seus “amigos” de de orkut, my spaces, facebooks e etc postaram algumas fotos posando com pistolas, fuzis, ou próximos a mísseis podem ter certeza que eles passaram por lá, pois qualquer visitante podia pegar uma pistola, dentre as muitas sobrepostas nos balcões de empresas como a Taurus, fingir fazer a mira e apertar o gatilho. Via-se pais e mães orgulhosos de seus filhos por estarem portando armas enormes na na presença de tantas autoridades e flashs, mas sobre tudo na presença da LEGALIDADE. A quantidade de pessoas que faziam poses com cara de tigre era enorme.

Pela total naturalidade dos interessados todos pareciam estar no balcão da padaria, pedindo 3 pãezinhos ao seu Manoel ou então na fila de frios do supermercado quando se pede uma prova de queijo minas para saber se tem pouco ou muito sal, só que atrás do balcão não estava o seu Manoel, e sim as grandes indústrias mundiais fabricantes de instrumentos bélicos, que fomentam as guerras pelo mundo. O que contava não era o teor de sal do queijo, as pessoas (homens em 99,%) se orgulhavam ao experimentar e medir o quanto as armas se adaptavam em suas mãos ou seu corpo, falo de um instrumento feito para matar seres humanos, o que ali desde a organização, o tratamento da imprensa, a naturalidade da circulação dos visitantes pelos corredores parecia ser algo ou desprezado ou já totalmente internalizado como “o que deve ser feito”.

Dentre os visitantes havia grupos grandes da marinha, aronáutica, exército, com jovens aparentando ter menos de 25 anos, que circulavam animados pelos estandes, experimentando os artefatos e conversando com as belas recepcionistas, e vi também alguns poucos membros do BOPE. Esses grupos estavam devidamente identificados pelos uniformes, mas a maioria das pessoas eram “civis”, e havia também homens de terno e gravata, com aparência e postura dos chamados “homens de negócio”.

Para entrar na LAAD, era necessário apenas fazer o credenciamento pelo site ou lá na hora mesmo, na entrada do pavilhão no RioCentro. Para a imprensa, o processo era o mesmo. A imprensa que presenciei por lá estava representada apenas pelo canal do Exército Brasileiro e vi uma equipe de TV que a princípio me pareceu de japoneses. Pedi um cartão, e agora com uma rápida busca no google vi que se trata de uma Agência de Notícias, a Xinhua, instituição jornalística estatal da República Popular da China, o maior centro de distribuição de notícias e informações da China.

No release da feira, e em muitos dos materiais gráficos dos estandes, o “lema” se pautava pela apresentação das mais modernas tecnologias e estratégias existentes para a obtenção ou manutenção da SEGURANÇA e estabelecimento das DEFESAS nacionais.

Eu também estava lá, com meus amigos, durante o tempo em que circulei e presenciei todo esse “clima” do evento, na minha cabeça surgiam diversos momentos das filmagens do Falcão Meninos do Tráfico e da realidade das favelas de todo o país por onde passei ao longo dos anos, onde vi e vejo crianças de 10 anos (ou menos) em diante com armas nas mãos.

Foi impossível não ver a imagem que se formava na minha mente de que muitas dessas novas tecnologias para promover a segurança apresentadas no RioCentro acabarão tendo esse mesmo destino, indo parar nas mãos de crianças e jovens das favelas, causando a nossa “guerra” urbana de todo dia, e, do outro lado, estarão nas guerras oficias, nos arsenais dos israelenses, palestinos e povos africanos que se matam, se dizimam e provocam atentados matando milhares de civis. Mas ali, entre os homens de negócios que circulavam tranquilamente com suas pastas, nada o que estava sendo vendido parecia ter qualquer relação com essas tragédias. Com absoluta certeza, todos botaram suas cabeças no travesseiro e foram dormir tranquilos e muito possivelmente com alguns milhões a mais em suas contas-bancárias e/ou na contabilidade de suas empresas.

Diante disso, faço apenas 2 perguntas:

Essa é a forma que o mundo conseguirá ter segurança, se armando cada vez mais e “melhor”?

O combate à violência e o fim das guerras faz realmente parte da agenda dos governantes mundiais, como é declarado todos os dias nos jornais, ou as guerras urbanas e os conflitos entre países são apenas meros meios para aumentar e manter o todo o poderoso mercado de material bélico e imensa rede que o circunda?

População negra, principal vítima das armas de fogo, precisa de mais atenção do Estado, afirmam especialistas




Por: ONU Brasil
14/12/2011

Direcionar recursos não só da área de segurança, mas principalmente da área social, para segmentos da população historicamente marginalizados é um dos principais fatores que poderão contribuir para a redução do índice de homicídios nestes segmentos e dos homicídios em geral, concordam os especialistas que participaram do terceiro painel do Seminário de Desarmamento, Controle de Armas e Prevenção à Violência, com o tema “Gênero, Raça/Etnia e Violência Armada”.

O evento foi promovido pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) e pelo Sistema das Nações Unidas no Brasil em comemoração do Dia dos Direitos Humanos 2011.

Durante o evento, a capitã da Polícia Militar e analista criminal do Instituto de Segurança Pública (ISP/RJ), Cláudia Moraes, ressaltou a importância simbólica da luta de Maria da Penha Maia Fernandes, farmacêutica cearense conhecida como Maria da Penha, que recebeu em 1983 um tiro de seu marido, um professor universitário, enquanto dormia.

Em consequência, ela perdeu os movimentos das pernas. Seu marido tentou acobertar o crime, afirmando que o disparo havia sido cometido por um ladrão. Após voltar do hospital, no mesmo ano, sofreu mais agressões e iniciou, no ano seguinte, uma longa jornada em busca de justiça. Ela dá nome à mais importante lei brasileira na luta contra a violência de gênero, em vigor desde 22 de setembro de 2006.

Cláudia Moraes é uma das autoras do ‘Dossiê Mulher’, relatório do ISP que traz informações relativas à violência contra a mulher no Estado do Rio de Janeiro. “Muitas das mortes das mulheres são causadas pelo fato de serem mulheres. Por mais que ainda não utilizemos esta categoria, trata-se de femicídio”, afirmou. Ela lembra que existe os dados de violência contra as mulheres são de baixa qualidade, talvez por uma questão cultural que ainda persiste.

Segundo a pesquisadora, oficialmente 206 mulheres foram vítimas de homicídio doloso por armas de fogo (armas de porte, principalmente) em 2010. Cláudia concluiu que a maior parte dos homicídios de mulheres se dão no espaço público, são realizados com armas de fogo e as vítimas são pardas e negras.

Tatiana Moura, Diretora Executiva do Instituto Promundo, lembrou a omissão do Estado em oferecer espaços de participação para as mulheres, identificando uma série de deficiências históricas, como o não cruzamento entre dados das esferas pública e privada. Ela apontou como um importante marco a resolução 1325 do Conselho de Segurança da ONU, de 31 de outubro de 2000, que reafirmou o papel das mulheres na prevenção e resolução de conflitos, negociações de paz, construção da paz, manutenção da paz, resposta humanitária e reconstrução num cenário de pós-conflito.

Em tempos de guerra ou de paz, violência é semelhante

“Se olharmos bem, determinados fenômenos de guerra na violência contra as mulheres se articulam com violências em tempos de paz”, afirmou Tatiana. Ela apontou ainda que 75% das armas pequenas (leves) estão nas mãos de civis, o que ocorre também em contextos de paz, situação que gera grandes riscos para as mulheres. “Essa realidade é frequentemente negligenciada nos contextos de violência de gênero em países como o Brasil ou a África do Sul”. Para além das mortes e ferimentos de mulheres por armas de fogo, explica Tatiana, existem outros impactos diretos, como a perda de um parente ou conhecido próximo.

Nos primeiros dez anos da resolução 1325, afirma, mais de 20 países fizeram planos para colocar em prática a resolução. “O Brasil ainda não”, destacou, lembrando que ainda há muito a ser feito. “A resolução 1325 não é apenas um instrumento de política internacional, e sim de políticas nacionais para a prevenção da violência”.

Racismo institucionalizado gera distorções, mesmo quando há melhorias

Lúcia Xavier, coordenadora da organização não governamental Criola, trouxe dados do sistema de saúde que, segundo argumentou, precisam ser utilizados e comparados com os da segurança. Para Lúcia, os homicídios masculinos apresentam dados muito importantes e a questão racial é igualmente central, conforme ela demonstrou por meio de gráficos com os índices de homicídios no Estado. “Se essas vítimas têm cor, significa que existe aí um outro argumento. São dados ‘coloridos’ pelo racismo institucionalizado”, afirmou.

Utilizando dados do Ministério da Saúde, a especialista aponta que tanto os homens negros quanto as mulheres negras são os mais atingidos por armas de fogo.

Após o início da campanha do desarmamento liderada pelo Ministério da Justiça, apontou Lúcia Xavier, aumentaram os riscos de morte da população parda e negra e diminuiu os da população branca. “Esta política não atinge a população negra, não dá conta das principais vítimas da violência, historicamente. Não traz resultado”, criticou.

“Se há práticas institucionalizadas de racismo”, completou Lúcia, “o que devemos fazer?”. Segundo ela, garantir direitos deve passar por uma política pública que divida as riquezas nacionais. São políticas em áreas como educação, saúde e moradia, entre outras. A especialista lembrou que R$ 635 bilhões vão para a amortização da dívida, por exemplo. “É preciso redistribuir poder para que recursos sejam redistribuídos. As políticas públicas devem ser voltadas para a redistribuição de renda, do contrário as vítimas permanecerão as mesmas.”

Respondendo a uma observação do público sobre o aumento de registros de casos, a coordenadora da ONG Criola lembrou que a violência contra mulheres negras não é um fenômeno recente. “Se elas denunciam mais hoje, é porque se sentem mais seguras. As mulheres negras têm mais experiência nesse tema e, por vezes, não denunciam à polícia por não considerar esta a melhor via.”

Já Cláudia Moraes afirmou que o aumento de registros da violência contra as mulheres no Rio é, em parte, consequência da pacificação promovida pelo Governo do Estado.

Verônica dos Anjos, Coordenadora de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do ONU Mulheres Brasil e Cone Sul e mediadora do terceiro painel, ressaltou que as mortes se dão tanto em países em conflito quanto países considerados em paz. “Mulheres morrem muito mais por armas de fogo do que por qualquer outro objeto, e a maioria são negras. Este é o cenário.”

O Diretor do Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), Giancarlo Summa, encerrou o seminário afirmando que o evento fortalece a estratégia da ONU sobre o tema e fundamenta o trabalho em questões como Segurança Cidadã e Raça, Gênero e Etnia, duas áreas de forte atuação do Sistema das Nações Unidas.

Summa lembrou que as organizações podem contar com as Nações Unidas, que estão de portas abertas para realizar parcerias e cooperações com a sociedade, como já acontece com diversas das iniciativas junto com as agências, fundos e programas da ONU que atuam no Brasil.

Fonte: ONU Brasil

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Negro e pardo são principais vítimas de homicídios no DF, diz estudo


Por: Jamila Tavares - G1
16/12/2011

Pesquisa mostra que morreram 437,5% mais negros do que brancos no DF. GDF diz que falta de políticas públicas para esses grupos explicam mortes.

Os negros e pardos são as principais vítimas de homicídios no Distrito Federal, de acordo com dados do Mapa da Violência 2012 divulgado nesta quarta-feira (14) pelo Instituto Sangari. O estudo aponta que no ano passado morreram proporcionalmente 437,5% mais negros do que brancos na capital do país.

Em números absolutos, foram registrados 760 homicídios de negros e pardos no DF em 2010, o que corresponde 86,36% do total (880).

Os números colocam o DF na quinta posição do ranking nacional de homicídios de negros e pardos, atrás de Alagoas, Espírito Santo, Paraíba e Pará – todos com taxas acima de 50 homicídios para cada 100 mil negros. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 56,31% da população do DF se declarou preta ou parda em 2010.

A assessora especial da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial do DF, Marlene da Silva Lucas, afirma que as altas taxas de mortalidade da juventude negra no Distrito Federal é resultado da exclusão desta parcela da sociedade das políticas públicas.

“As políticas de ações afirmativas têm um papel relevante na erradicação desses lamentáveis dados”, diz. Marlene afirma ainda que a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial já está trabalhando em parceria com outras pastas para reduzir a morte de jovens negros.

No geral, o estudo mostra que o número de homicídios no DF caiu 14,3% desde 2000. Entre 2009 e 2010, por exemplo, o número de homicídios na capital do país caiu de 1.005 para 880 – o que coloca o DF na 10ª posição no ranking nacional de mortes por 100 mil habitantes. Em 2000, a capital do país ocupava a 7ª posição.

Os registros de mortes violentas nas cidades do Entorno, entretanto, aumentou 39,3% na última década, chegando a 1.451 em 2010. A taxa de mortes por 100 mil habitantes da região, 10,6, ainda é menor do que a verificada, por exemplo, nas regiões metropolitanas de Salvador (418,2), Belém (325,0), São Luís (246,4) e no Vale do Itajaí, em Santa Catarina (228,9).

Fonte: G1 DF

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Democracia Racial ainda é um mito


Por: Editorial Observatorio de favelas
24/11/2011

Comemorado no último 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra – em outras regiões Brasil, Dia de Zumbi – além de ser um dia de festa, também é um momento de reflexão. Zumbi nos remete, automaticamente, a um guerreiro, com espírito de luta e resistência a quaisquer formas de violência e segregação. De outro lado, Consciência que, dentre outros significados, é definida como “sentimento ou conhecimento que permite ao ser humano vivenciar, experimentar ou compreender aspectos ou a totalidade de seu mundo interior”.

A partir destas duas premissas, o Notícias&Análises convida os leitores a uma viagem intronáutica a índices e realidades que ainda fazem parte do cotidiano e da história da população negra.

Para se ter uma idéia, abrimos este convite com a comprovação de que o racismo faz mal à saúde e mata. De acordo com o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil (2009 – 2010), publicado esse ano, a população negra é aquela que mais adoece e morre de causas evitáveis como a tuberculose. No ano de 2008, do total de, aproximadamente, 54,8 mil novos casos da doença, 47,5% ocorreram entre negros e pardos, enquanto o percentual de brancos que a contraíram foi de 32,8%.

Ainda de acordo com o relatório, a população negra também é aquela que mais morre por homicídio. Em 2007, o número de mortos por cem mil habitantes em decorrência deste tipo de crime em todo o país foi de 32,2 entre os negros e pardos, contra 15,5 entre os brancos - mais que o dobro. Quanto ao risco de ser assassinado, entre os negros jovens a chance é quatro vezes maior do que a dos brancos na mesma faixa etária.

Não por coincidência, na educação a situação se repete. A taxa de analfabetismo teve uma redução de quatro pontos percentuais conforme informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Censo 2010. O país tem 14 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais, representando 9,63% nessa faixa etária. As taxas de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade é de 13,3% para a população de cor preta, de 13,4% para os pardos contra 5,9% dos brancos, ou seja, a taxa de analfabetismo dos negros é mais que o dobro em relação à dos brancos.

Ainda de acordo os dados do IBGE mais de 60% dos jovens entre 7 e 14 anos que não freqüentam a escola são negros. O que a frieza dos dados sobre diferentes campos demonstra se choca frontalmente com as mensagens que nos chegam diariamente através das narrativas da grande mídia. Mesmo que a presença negra venha crescendo tanto na imprensa quanto na ficção televisiva e cinematográfica, as conseqüências das desigualdades e dos conflitos raciais cotidianos permanecem invisibilizados pelos meios de comunicação de massa.

A dura realidade do racismo em nosso país é, frequentemente, deixada de lado para dar lugar a contos e histórias de um Brasil que saberia melhor do que qualquer país do mundo lidar com suas diferenças. A constatação que se tem é que a democracia racial continua sendo um mito. Desta forma, nossa busca é para que as perversas conseqüências do racismo sejam encaradas de frente, pois só assim é que se consegue caminhar na direção da superação do próprio racismo. Pelo visto, esta luta ainda se tarda em terminar.

Fonte: Observatorio de favelas

sábado, 15 de outubro de 2011

Escolas investem na mediação de conflitos para promover a paz



Resolver os conflitos no ambiente
escolar por meio do diálogo é uma
prática que vem se mostrando eficaz
para a prevenção da violência e o
desenvolvimento da cultura da paz nas
escolas. Um exemplo disso é o projeto
desenvolvido há
cerca de um ano
pelo Centro de Ensino
Médio (CEM)
01 – Escola São
Francisco de São
Sebastião/DF, em
parceria com o Instituto
Pró-mediação,
entidade sem
fins lucrativos, que
tem como missão
promover a Cultura
da Mediação
no Brasil. A idéia
deu tão certo que
despertou a atenção de outras escolas
e hoje o projeto já é desenvolvido em
instituições de ensino localizadas no Recanto
das Emas, no Gama e no Paranoá.
Localizada na considerada a
terceira região mais violenta do Distrito
Federal, a escola São Francisco era um
reflexo do que ocorria lá fora, mas desde
o ano passado esse cenário vem mudando.
Alunos bagunceiros, considerados
líderes negativos, foram escolhidos
para integrar o projeto “Mediação de
Conflitos”. O projeto aproveitou o potencial
de liderança que esses meninos
já tinham para transformá-los, por meio
de um curso, em mediadores. Uma vez
formados eles passaram a resolver os
conflitos por meio do diálogo, tornando
o ambiente escolar mais atrativo e
respeitoso, tanto para alunos quanto
para professores.
A mudança no comportamento
dos alunos já começa a ser sentida
no decorrer do curso. Lá eles aprendem
a ter outra visão do conflito, que pode
deixar de ser só uma coisa negativa dependendo
da forma como ele é resolvido.
Por meio de aulas práticas e teóricas,
os futuros mediadores
são levados
a compreender
a mediação dos
conflitos como um
instrumento para
a prática da cultura
da paz, da justiça,
da cidadania
e o respeito aos
direitos humanos.
Segundo o professor
Francisco Celso,
do Centro de
Ensino Fundamental
(CEF) 602 do
Recanto das Emas/
DF, além de melhorar a convivência no
ambiente escolar e prevenir a violência,
a mediação é também uma forma de
promover a inclusão, o diálogo, a autonomia
e a participação coletiva.
“A ideia é envolver
não só os estudantes, mas,
também, professores, corpo
técnico-administrativo,
mães e pais de alunos”,
explicou o professor Francisco
Celso. Segundo ele,
todos, de alguma forma,
são personagens dos conflitos
que acontecem dentro
da escola e para que a
mediação funcione é preciso
que todos se sintam representados.
O aluno que
participou do conflito é representado
por um mediador-
aluno, o professor pelo
mediador-professor, e assim por diante.
Daí a importância de todos passarem
pelo curso de mediadores. Mas, para que
isso aconteça, é necessário não só que
todos tenham entendimento da importância
da mediação como, também, que
fique bem claro que ela não substitui as
ferramentas tradicionais da escola.
FORM ATURA – No CEF 602, o
“Projeto Estudar em Paz – Mediação de
Conflitos no Contexto Escolar” formou
sua primeira turma de mediadores no
dia 16 de setembro deste ano. Segundo
o professor Francisco Celso, a participação
desses alunos no curso se deu
de forma voluntária, após um trabalho
de sensibilização feito na escola. A surpresa
é que a procura pelo curso foi superior
ao número de vagas, mas todos
serão atendidos no decorrer do projeto,
conforme garantiu o professor. Os formandos
foram apresentados formalmente
para toda a comunidade escolar,
com direito a cerimônia de entrega de
certificados, camisetas e show da banda
“Estudar em Paz” – criada exclusivamente
para o projeto.


Fonte: www.sinprodf.org.br

sábado, 21 de maio de 2011

Bob Marley e a consciência negra no Brasil


Por: Flávio Jorge Rodrigues da Silva*
16/05/2011



No início da década de 70, desafiando a ditadura militar, a violência policial e os obstáculos à liberdade de expressão, a juventude negra da época se organizou através de um movimento que é a origem do que denominamos movimento negro contemporâneo.

O ponto de partida para a articulação dessa juventude é a valorização da cultura negra e o resgate da história de organização da população negra no Brasil.

Recebe, também, a influência de significativos exemplos de luta em outros lugares do mundo como:

- O movimento da negritude surgido na França na década de 30, a partir da ação de intelectuais negros em torno de questões como a afirmação da dignidade racial;

- O movimento dos direitos civis nos Estados Unidos na década de 70, impulsionado pelos negros americanos em torno de bandeiras como a mobilidade social e igualdade do direito à cidadania entre negros e brancos.


- Os movimentos de libertação dos países africanos, também nos anos 70, que marcaram o fim do colonialismo português e a ascensão ao poder da população negra de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Os bailes, as equipes de som e a música negra são as os meios para os encontros e as manifestações dos valores e ideias dessa juventude.

Entre essas manifestações está um gênero musical, com letras de forte conteúdo político, oriundo do Caribe e principalmente da Jamaica, o reggae. Grupos como os Wailers e nomes como Burning Spears, Jimmy Cliff, Peter Tosh, Bob Marley passam a ser conhecidos e a ter suas músicas veiculadas aqui no Brasil.

Dando um salto no tempo, nessa semana acompanhamos, ao redor de todo o mundo, a rememoração dos 30 anos da morte do principal destaque do reggae, Bob Marley, que ao plantar suas raízes musicais, sociais e políticas a partir dos anos 70 é, sem dúvida, uma das pessoas mais veneradas e conhecidas no planeta.

“Nós nos recusamos a ser
o que você queria que nós fossemos,
Somos o que somos,
é assim que vai ser,
você não pode me educar”
Babylon System

“Quando eu lembro do estalar do chicote
meu sangue corre gelado,
lembro no navio de escravos,
quando brutalizavam minha alma”.
Slave Driver

“Em que eu me lembro,
a gente sentado ali
na grama do aterro sob o sol,
observando hipócritas
disfarçados, olhando ao redor
amigos presos,
amigos sumindo assim,
pra nunca mais,
tais recordações,
retratos do mal em si,
melhor é deixar pra trás,
Não, não chore mais,
Não, não chore mais.
(Versão de Gilberto Gil de No woman No cry – LP Realce, 1979)

Esses são trechos de música e letras ouvidas e cantadas por várias gerações e que tornaram Bob Marley um dos ícones, um modelo e um exemplo de luta contra as injustiças sociais, em todo o mundo. Que também contribuiu para que nós, negros e negras, aqui no Brasil tenhamos adquirido uma consciência negra, através do resgate de nossa história, da valorização de nossa cultura e de nossos líderes, que nos impulsiona a desconstruir o racismo e fortalecer a nossa identidade racial.


* Flávio Jorge Rodrigues da Silva é diretor da Fundação Perseu Abramo, militante da Soweto – Organização Negra e dirigente da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen)